saber / conocer, pedir / preguntar, llevar / traer e salir / irse.
E eu já vou adiantar a melhor parte: você, que fala português, já tem os quatro pares no seu idioma. Isso muda completamente o tipo de trabalho que a gente precisa fazer aqui, viu?
São um pesadelo para quem fala inglês. Em inglês, know cobre saber e conocer, ask cobre pedir e preguntar, bring e take vivem se embolando, e leave cobre salir e irse.
O português não faz nada disso. Você já diz saber e conhecer, pedir e perguntar, levar e trazer, sair e ir embora. E são as mesmas palavras, com a mesma origem latina.
- 1 A boa notícia primeiro: os quatro pares já existem em português
- 2 O eixo único: o espanhol escolhe o verbo pelo ponto de vista de quem fala
- 3 Par 1: saber / conocer — informação x contato
- 4 Par 2: pedir / preguntar — coisa x informação
- 5 Par 3: llevar / traer — para longe x para perto
- 6 Par 4: salir / irse — sair de dentro x ir embora daqui
- 7 As 5 frestas: onde o brasileiro realmente escorrega
- 8 As conjugações irregulares: um padrão, quatro verbos
- 9 Teste rápido: 8 frases para conferir
- 10 Resumo
A boa notícia primeiro: os quatro pares já existem em português
Antes de qualquer explicação, vale colocar a tabela de correspondência na mesa. Ela resolve uns 80% do assunto sozinha:
Os 4 pares e seus equivalentes em português
saber = saber (fatos, informação, como se faz algo)
conocer = conhecer (pessoas, lugares, obras — ter tido contato)
pedir = pedir (coisas, favores, um café no bar)
preguntar = perguntar (informação)
llevar = levar (daqui para lá)
traer = trazer (de lá para cá)
salir = sair (de dentro para fora de um lugar)
irse = ir embora (abandonar o lugar onde se está)
Quase. E é justamente esse “quase” que este artigo existe para tratar.
Este não é um artigo para decorar. É um artigo para fechar as frestas.
Os quatro pares batem, mas em uns cinco pontos específicos o espanhol vai um pouco além do português — e é exatamente ali que o brasileiro erra, porque confia na semelhança e não desconfia de nada.
O eixo único: o espanhol escolhe o verbo pelo ponto de vista de quem fala
Antes de ir para os pares um por um, existe uma ideia que atravessa os quatro. Se você entender ela, os quatro deixam de ser quatro regras soltas e viram quatro aplicações da mesma coisa.
A ideia é esta: o espanhol não escolhe o verbo olhando para o objeto. Ele escolhe olhando para onde está quem fala e para o que essa pessoa quer.
O eixo de cada par
llevar / traer e salir / irse ⇒ o eixo é o ponto de referência no espaço (o lugar onde estou)
saber / conocer ⇒ o eixo é o tipo de contato com o conhecimento (tenho a informação ou já encostei nisso?)
pedir / preguntar ⇒ o eixo é o que eu quero de volta (uma coisa ou uma informação?)
Repara que todos os três eixos têm o mesmo centro: eu, aqui, agora, querendo alguma coisa.
Por isso eu digo que o espanhol não é “complicado”. Ele só carrega dentro do verbo uma informação que o inglês joga fora — e que o português, felizmente, também carrega.
Par 1: saber / conocer — informação x contato
saber é para informação: fatos, dados, e também “saber fazer” alguma coisa.
conocer é para contato: pessoas, lugares, obras, campos de estudo — coisas com as quais você já teve algum encontro.
saber / conocer na prática
・Sé que vive aquí.
(Sei que ele mora aqui. — um fato)
・No sé dónde está.
(Não sei onde ele está. — informação)
・Sé nadar.
(Sei nadar. — saber fazer)
・Conozco a Ana.
(Conheço a Ana. — tenho contato com a pessoa)
・¿Conoces Madrid?
(Você conhece Madri? — já esteve lá)
Teste de uma pergunta só: o que vem depois do verbo?
Se vier um fato, um “que…”, um “dónde/cuándo/quién…” ou um infinitivo ⇒ saber
Se vier uma pessoa, um lugar ou uma obra ⇒ conocer
Duas coisas que valem o alerta desde já. A primeira: conocer pede a preposição a antes de pessoa — Conozco a Ana, e não Conozco Ana. A segunda: no pretérito, os dois mudam de sentido. Supe não é “eu sabia”, é “eu fiquei sabendo”; conocí não é “eu conhecia”, é “eu conheci pela primeira vez”.
Perfeito, é exatamente isso! O português faz a mesmíssima virada. Supe la verdad ayer = “Soube a verdade ontem”.
Esse é um daqueles casos em que quem fala português entra com uma vantagem enorme e nem percebe.
Quer o par completo, com o pretérito, o “saber a limón” e a diferença entre Sé quién es e Lo conozco?
⇒ saber ou conocer: a diferença explicada com exemplos (e o que muda no passado)
Par 2: pedir / preguntar — coisa x informação
pedir é quando você quer uma coisa ou uma ação de volta. preguntar é quando você quer uma informação de volta.
pedir / preguntar na prática
・Pedí un café.
(Pedi um café. — volta uma coisa)
・Le pedí ayuda.
(Pedi ajuda a ele. — volta uma ação)
・Le pregunté la hora.
(Perguntei as horas a ele. — volta uma informação)
・Preguntó si estabas en casa.
(Ele perguntou se você estava em casa.)
Teste de uma pergunta só: o que a outra pessoa te devolve?
Devolve uma coisa ou um gesto ⇒ pedir
Devolve uma informação ⇒ preguntar
E guarda esta: no restaurante é sempre pedir. Pedir la cuenta, pedir la especialidad de la casa. O verbo do garçom é pedir, viu?
A armadilha aqui é gramatical, não de sentido. Em português a gente diz “peço para você vir”. Em espanhol, a estrutura é pedir que + subjuntivo: Te pido que vengas. Escrever × pido para que vengas é um erro tipicamente brasileiro, e ele denuncia o português por trás na hora.
Quer ver a estrutura pedir que destrinchada, mais preguntar por, hacer una pregunta e a mudança de vogal pido/pides?
⇒ pedir ou preguntar: quando usar cada um em espanhol
Par 3: llevar / traer — para longe x para perto
Este é o par mais fácil de todos para quem fala português, porque é letra por letra o nosso levar e trazer.
O ponto de referência
llevar ⇒ o objeto se afasta de onde eu estou (daqui para lá) = levar
traer ⇒ o objeto se aproxima de onde eu estou (de lá para cá) = trazer
【O contraste que resolve】
・Tráemelo.
(Traz aqui para mim.)
・Llévaselo.
(Leva isso para ele.)
Na direção, pode. Mas segura essa, porque aqui está a maior surpresa do artigo inteiro:
o llevar espanhol é bem mais amplo que o nosso levar.
Ele também significa estar usando uma roupa, fazer tanto tempo que, e se dar bem com alguém. Nada disso o nosso “levar” faz.
Os sentidos de llevar que o “levar” brasileiro não tem
・Lleva una camisa azul. ⇒ “Está de camisa azul” (roupa — em português seria usar/estar de)
・Llevo dos años estudiando. ⇒ “Faz dois anos que eu estudo” (tempo de duração)
・Me llevo muy bien con mi madre. ⇒ “Eu me dou muito bem com a minha mãe” (relação)
・Esta sopa lleva ajo. ⇒ “Esta sopa tem/leva alho” (ingredientes)
Quer todos os sentidos de llevar, o imperativo tráemelo/llévaselo e a pegadinha do pretérito traje?
⇒ llevar ou traer: a diferença e os usos que o “levar” português não tem
Par 4: salir / irse — sair de dentro x ir embora daqui
salir é sair de dentro de um espaço: da casa, do trabalho, do carro. O foco está no lugar de onde se sai.
irse é ir embora: o foco está em abandonar o lugar onde se está, e o destino nem precisa aparecer.
salir / irse na prática
・Salgo de casa a las ocho.
(Saio de casa às oito.)
・El tren sale a las ocho.
(O trem sai às oito.)
・Me voy.
(Eu vou embora. / Já vou indo.)
・Me tengo que ir.
(Tenho que ir embora.)
Teste de uma pergunta só: você quer dizer de onde está saindo, ou quer avisar que já vai?
“De onde” ⇒ salir ・ “já vou” ⇒ irse
E o alerta que vale ouro numa festa: para se despedir, é Me voy, nunca Salgo. Dizer só Salgo soa como “eu saio (de algum lugar)”, e a pessoa vai ficar esperando o resto da frase.
A dificuldade aqui é de forma, não de sentido. O português resolve com um advérbio — “ir embora“. O espanhol resolve com um pronome grudado no verbo: me voy, te vas, se va. Como as duas línguas usam mecanismos diferentes, é comum sair uma mistura das duas, tipo × voy embora.
Muito diferentes! Voy pede um destino — Voy al banco. Sozinho, ele fica pendurado no ar.
Me voy não precisa de destino nenhum, porque o assunto dele é o lugar que você está deixando. É idêntico à lógica do nosso “Vou” x “Vou embora”, viu?
Quer salir con alguien, salir bien/mal, os imperativos Vete e Vámonos e a diferença entre irse e marcharse?
⇒ salir ou irse: como dizer “sair” e “ir embora” em espanhol
As 5 frestas: onde o brasileiro realmente escorrega
1. llevar é mais largo que “levar”
Roupa (Lleva gafas), duração (Llevo tres meses aquí) e relação (Nos llevamos bien) são usos que o “levar” brasileiro não cobre. × levar-se bem não existe em português, e é justamente por isso que llevarse bien passa despercebido na leitura.
2. irse é pronominal; “ir embora” não é
O pronome não é opcional. Me voy, se van, vete. Sem o pronome, a frase muda de sentido.
3. pedir que + subjuntivo, e não “pedir para”
Te pido que vengas. Não × te pido para venir, não × te pido de que vengas.
4. A semelhança da escrita prega peças em traer
É traer (não “trazer”), e o passado é traje (não “trouxe”, nem “traí”). São palavras primas, mas a forma é outra.
5. conocer pede o a, e nomes próprios não levam artigo
Em português a gente diz “Conheço a Ana”, com artigo. Em espanhol é Conozco a Ana — parece igual, mas aquele a é outra coisa: é a preposição que marca pessoa como objeto direto. Com nome masculino a diferença aparece: “Conheço o Pedro” vira Conozco a Pedro. E × Conozco a la Ana está errado, porque o espanhol não põe artigo antes de nome próprio de pessoa.
É a armadilha clássica das línguas irmãs, viu? Quando a forma coincide por acaso, a gente para de investigar.
Por isso vale a pena guardar essas cinco frestas como uma lista à parte. Elas são o seu trabalho real neste assunto — o resto você já sabe.
As conjugações irregulares: um padrão, quatro verbos
Tem uma coincidência muito conveniente aqui. Quatro dos verbos deste artigo são irregulares só na primeira pessoa do singular. Fora o “eu”, eles se comportam.
O grupo do “eu esquisito”
saber ⇒ sé (não “sabo”) ・ sabes, sabe, sabemos, sabéis, saben
conocer ⇒ conozco ・ conoces, conoce, conocemos, conocéis, conocen
traer ⇒ traigo ・ traes, trae, traemos, traéis, traen
salir ⇒ salgo ・ sales, sale, salimos, salís, salen
Os outros dois casos fogem desse molde. pedir muda a vogal do radical em quase todas as pessoas (pido, pides, pide, pedimos, pedís, piden), e irse carrega o pronome sempre (me voy, te vas, se va, nos vamos, os vais, se van). Já preguntar é totalmente regular — não dá trabalho nenhum.
Teste rápido: 8 frases para conferir
Escolha o verbo certo
1. ¿(Sabes / Conoces) a mi hermano?
2. No (sé / conozco) qué hora es.
3. Le (pedí / pregunté) un vaso de agua al camarero.
4. Le (pedí / pregunté) dónde estaba el baño.
5. Estoy en casa. ¿Me (llevas / traes) el paraguas?
6. Voy a la fiesta y (llevo / traigo) el postre.
7. Ya es tarde, (salgo / me voy).
8. (Salgo / Me voy) de la oficina a las seis.
【Respostas】
1. Conoces — é uma pessoa, contato.
2. sé — informação (que horas são).
3. pedí — volta uma coisa, o copo d’água.
4. pregunté — volta uma informação.
5. traes — o guarda-chuva vem até onde eu estou.
6. llevo — a sobremesa sai daqui e vai para a festa.
7. me voy — é uma despedida, o assunto é ir embora.
8. Salgo — o assunto é de onde se sai, o escritório.
Resumo
⇒ saber/conocer = informação x contato
⇒ pedir/preguntar = coisa x informação
⇒ llevar/traer = para longe x para perto
⇒ salir/irse = sair de um espaço x abandonar o lugar
● Quem fala português já tem os quatro: saber/conhecer, pedir/perguntar, levar/trazer, sair/ir embora
● O trabalho de verdade está em cinco frestas: o llevar largo, o pronome de irse, pedir que + subjuntivo, a grafia de traer/traje, e o a de conocer
● Irregular só no “eu”: sé / conozco / traigo / salgo
- saber ou conocer — informação x contato, e o pretérito que muda tudo
- pedir ou preguntar — o que volta para você, e o subjuntivo depois de pedir que
- llevar ou traer — a direção e os sentidos extras de llevar
- salir ou irse — Me voy, Vete, Vámonos e o pronome obrigatório
Spanish with Vicente, “Diferencia entre llevar y traer” (link)
Bien de español, “Verb LLEVAR in Spanish: 13 meanings + 50 examples” (link)
Kwiziq Spanish, “Pedir vs Preguntar (to ask)” (link)
Enforex, “El uso de la A personal en español” (link)
Le Conjugueur / elconjugador.com, conjugações de saber, conocer, pedir, traer, salir e irse (link)
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “O valor de embora” (link)