Al pastor: significado, por que a carne é porco e de onde veio esse nome

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Olha só, hoje a gente vai desmontar a expressão “al pastor” – provavelmente o nome mais pedido em qualquer barraca de tacos do México.

E vou começar pelo fim, porque essa informação é prática demais para ficar guardada: “al pastor” se traduz como “à moda do pastor”, mas a carne é de porco.

Como assim? Pastor cuida de ovelha! Eu ia jurar que era carneiro.
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Todo mundo jura, viu? E é uma dedução perfeitamente lógica – que dá errado.

O motivo é que “al pastor” não descreve o animal. Descreve o jeito de assar. É um nome de método, não de ingrediente. Quando você entende isso, metade do cardápio mexicano se abre.

Al pastor: significado literal e por que o brasileiro tem vantagem aqui

Vamos por partes, começando pela palavrinha al.

“Al” é a contração de “a” + “el” – exatamente a mesma coisa que o nosso “ao”, que é “a” + “o”.

A conta é idêntica nos dois idiomas

Espanhol: a + el = al
Português: a + o = ao

Então al pastor é, letra por letra, “ao pastor” – no sentido de “ao modo do pastor”, “à moda do pastor”.

Ah, então é aquele “à moda” de cardápio! Tipo bife à parmegiana, bacalhau à Brás, frango à passarinho.
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É exatamente isso! Você acabou de matar a charada sozinho.

E repare como o português já te treinou para essa lógica: em “frango à passarinho” ninguém acha que tem passarinho dentro. O “à passarinho” diz como o frango foi cortado e frito, não o que ele é.

Al pastor funciona igualzinho. Diz como a carne foi assada, não que animal ela é.

Aliás, a palavra pastor em espanhol é a mesmíssima palavra do português, com o mesmo sentido: a pessoa que cuida do rebanho. Aqui não tem falso amigo nenhum – o significado da palavra está certo. O que engana é a expectativa que ela cria sobre o prato.

A informação prática: al pastor é carne de porco

Se você não guardar mais nada deste artigo, guarde isto: o taco al pastor é feito com carne de porco (cerdo).

Não é carneiro, não é boi, não é frango. É porco marinado numa mistura vermelha de temperos e assado num espeto vertical que gira.

Se você precisa confirmar a carne

¿Lleva carne de cerdo? – Leva carne de porco?
¿De qué es la carne? – De que é a carne?
¿Tienen algo sin cerdo? – Vocês têm algo sem porco?
No como cerdo. – Eu não como porco.

E as alternativas que quase toda barraca tem: bistec e suadero (boi), pollo (frango), chorizo (linguiça, mas atenção: costuma ser de porco também).

O trompo: o espeto que virou o símbolo do taco

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Se você já viu foto de taquería, já viu o cilindro gigante de carne girando devagarzinho na frente de uma chama vertical, com o taqueiro raspando fatias finas da parte de fora.

Aquilo se chama trompo. E o nome tem uma graça que só quem fala espanhol percebe.

Trompo… que nem trombeta?
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Nada de trombeta! Trompo, em espanhol, é o pião – aquele brinquedo de madeira com ponta de metal que a gente enrola no cordão e joga para rodar.

O espeto de carne ganhou esse apelido justamente por causa do formato cônico e do movimento de rotação. É literalmente “o pião de carne”. Bem mais bonito que “espeto vertical”, né?

De onde veio o al pastor: uma história que começa no Líbano

Aqui a história fica muito melhor do que se imagina.

O taco al pastor não é um prato indígena antigo. Ele é relativamente recente, e nasceu de um encontro entre duas culturas.

O caminho até o taco al pastor

Fim do século 19 / começo do século 20
Com a desagregação do Império Otomano, milhares de pessoas da Síria e do Líbano emigram. Muitas chegam ao México.

Puebla, anos 1920
A comunidade libanesa se estabelece e traz consigo o shawarma – carne empilhada em espeto vertical.

Os “tacos árabes”
Surgem em Puebla as primeiras casas servindo essa carne, ainda numa massa de trigo parecida com pão pita.

A mexicanização
O cordeiro dá lugar ao porco. A massa de trigo dá lugar à tortilha de milho. Entra o adobo vermelho de achiote, temperos e pimentas secas.

Taco al pastor
O prato que hoje é símbolo da Cidade do México.

Sério que o taco mais mexicano de todos é primo do shawarma? Nunca ia adivinhar.
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Primo direto! E olha o detalhe bonito: a técnica atravessou o mundo, mas cada ingrediente foi trocado por um local.

Sobrou o espeto vertical. Todo o resto virou mexicano.

Mas por que “pastor”? Aqui é preciso honestidade

Você vai encontrar por aí a explicação de que o nome veio do formato do espeto, que lembraria o jeito de os pastores assarem carne espetada. É a versão mais contada.

Só que não existe consenso sobre isso. Há registros de que a expressão asado al pastor – carne assada no espeto sobre brasas – já circulava no México antes da chegada do trompo e da imigração libanesa, como técnica de fazenda.

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Prefiro te contar assim, com as duas versões, do que te vender uma certeza que não existe.

O que é seguro é o que interessa na hora de comer: o nome descreve um jeito de assar, e a carne é porco. Essas duas coisas ninguém contesta, viu?

Por que a carne é vermelha – e por que isso não quer dizer “ardido”

Aquela carne é bem vermelhona. Confesso que bate um receio – deve arder muito, né?
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Esse é o mal-entendido mais comum de todos, e a resposta vai te deixar bem mais tranquilo.

O vermelho do al pastor vem principalmente do achiote. E adivinha o que é achiote em português?

Urucum. O nosso colorau.

Colorau?! Aquele pozinho vermelho que a minha avó põe no arroz e no frango?
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Esse mesmo. Mesma planta, o Bixa orellana.

E você sabe por experiência própria: colorau não arde nada. Ele é usado justamente porque dá cor forte com sabor quase neutro. Tanto que serve para colorir queijo e comida em geral.

Ou seja: no al pastor, vermelho é cor, não é ardência. Você já conhecia esse tempero a vida inteira e nem sabia.

Isso não significa que o taco não vá arder de jeito nenhum – a marinada também leva pimentas secas, e principalmente o molho que você põe por cima é outra história. Mas a cor da carne, por si só, não é um aviso de perigo.

Se quiser confirmar antes de morder:

¿Pica el pastor? – O pastor arde?
¿La salsa pica mucho? – O molho arde muito?
Sin salsa, por favor. – Sem molho, por favor.

E o abacaxi? É obrigatório?

Você provavelmente já viu a foto: um abacaxi inteiro espetado no topo do trompo, e uma lasquinha caindo dentro do taco.

É a imagem clássica, mas não é uma regra. Em muitas cidades a carne é assada com o abacaxi no topo do espeto, em outras não. Tem barraca que não põe abacaxi nenhum, e nem por isso deixa de ser al pastor.

Se você quiser garantir (ou evitar):

¿Lleva piña? – Leva abacaxi?
Con piña, por favor. – Com abacaxi, por favor.
Sin piña, por favor. – Sem abacaxi, por favor.

A pegadinha de gramática: nunca “tacos al pastores”

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Agora um errinho que só quem já sabe um pouco de espanhol comete – e é justamente por saber demais, viu?

Você aprendeu que no espanhol o plural concorda: tacos ricos, tacos grandes. Aí bate o instinto e sai “tacos al pastores”.

Errado: tacos al pastores
Certo: tacos al pastor

Também certo: un taco al pastor / dos tacos al pastor / tres de pastor

O motivo é simples quando você lembra do “à moda de”: “al pastor” é um bloco fechado que descreve o modo de preparo. Ele não é um adjetivo comum, então não vai para o plural.

E o português te ajuda de novo aqui. A gente fala “dois bifes à milanesa”, e não “à milanesas”. A expressão de modo fica parada enquanto o prato vai para o plural. Idêntico.

Ah, então é só lembrar de “bifes à milanesa” que eu nunca mais erro. Boa!

Como pedir tacos al pastor na prática

Chegou a hora de usar. E lembre: na barraca, ninguém fala frase comprida. O pedido anda em pedacinhos.

A cena completa

Você: Buenas. Tres de pastor, por favor.
(Boa tarde. Três de pastor, por favor.)

Taqueiro: ¿Con todo?
(Com tudo?)

Você: Sí, pero sin cebolla.
(Sim, mas sem cebola.)

Taqueiro: ¿Con piña?
(Com abacaxi?)

Você: Sí, por favor. ¿Para llevar se puede?
(Sim, por favor. Dá para viagem?)

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Repare que a frase mais longa que você disse tem seis palavras.

E note o atalho: tres de pastor, sem a palavra tacos. Na barraca é óbvio que são tacos, então ela some. Igualzinho ao nosso “me vê dois de queijo” na padaria.

Pronúncia: dois detalhes que denunciam o brasileiro

1. O “r” final de pastor

A palavra é oxítona: pas-TOR, com a força na última sílaba – igual ao português.

A diferença está no r. Boa parte do Brasil fala “pastôh”, com o r final quase sumindo ou virando um sopro. Em espanhol esse r é batidinho, encostando a língua no céu da boca uma vez só – o mesmo r de arara ou caro.

2. O “s” de tacos não chia

Em espanhol o s é sempre um “s” seco: TA-cos, nunca “tacosh” nem “tacoz”. Vale para dos, tres, gracias – a lista toda.

Ah, então são coisas que eu faço no automático sem perceber. Vou prestar atenção.
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É isso – não é falta de estudo, é o seu português trabalhando sozinho.

E olha, ninguém vai deixar de te vender taco por causa de um r. Mas esses dois ajustes fazem uma diferença enorme em ser entendido de primeira.

Resumo: o significado de al pastor

al = a + el, exatamente como o nosso ao. Al pastor = “à moda do pastor”
● É nome de método, não de ingrediente – como “frango à passarinho” ou “bife à milanesa”
A carne é porco (cerdo), não carneiro
● O espeto vertical se chama trompo, que em espanhol quer dizer pião
● Origem: shawarma libanês chegou a Puebla nos anos 1920, virou tacos árabes e depois al pastor
● A origem exata do nome tem mais de uma versão – não existe consenso
● O vermelho vem do achiote, que é o nosso urucum/colorau: cor, não ardência
● O abacaxi é clássico, mas não é obrigatório
● Plural: tacos al pastor, nunca “al pastores”
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Agora que você tem o al pastor resolvido, falta o resto do pedido: o que responder quando perguntarem “¿con todo?”, como pedir sem cebola, o que beber junto.

Está tudo reunido no guia principal, viu?

Vocabulário de comida mexicana: como pedir tacos em espanhol sem travar na barraquinha

Fontes consultadas
Wikipédia em espanhol, verbete “Taco al pastor” (https://es.wikipedia.org/wiki/Taco_al_pastor)
Wikipédia em português, verbete “Urucum” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Urucum)
Food & Wine en Español, glossário de termos da comida de rua mexicana (https://foodandwineespanol.com/)