cariño: significado, uso como apelido e o caso em que dois dicionários da RAE discordam

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Olha só, hoje a palavra é “cariño”!

Você já vai reconhecer o desenho dela: é praticamente o nosso “carinho”, com o ñ fazendo exatamente o som do nosso nh. Se pronuncia ka-RI-nho.

Só que essa semelhança é uma armadilha. Em espanhol, “cariño” faz dois trabalhos: é o substantivo “afeto” E é o apelido que você usa pra chamar alguém (“meu bem”, “amor”) — e esse segundo trabalho o português não faz!

cariño significado: os dois papéis da palavra

“cariño” (substantivo masculino) significa “afeto, carinho, afeição” — o sentimento de querer bem a alguém. Esse é o significado que todo dicionário registra.

Mas se você chegar na Espanha e passar um dia inteiro ouvindo as pessoas conversarem, vai perceber que “cariño” quase nunca aparece como substantivo na boca das pessoas. Ele aparece assim:

Cariño, ¿me pasas la sal?
(Amor, você me passa o sal?)

— Buenos días, cariño.
(Bom dia, meu bem.)

Ah, então é tipo o nosso “amor” e “meu bem”? A pessoa não está falando sobre o afeto, ela está chamando alguém.
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Isso mesmo, você pegou na hora! Um é o nome do sentimento, o outro é o vocativo — a palavra com que você chama a pessoa.

E agora vem a parte estranha, viu? O dicionário oficial da RAE registra o primeiro uso e não registra o segundo.

As cinco acepções do DLE (e o que falta nelas)

O DLE (Diccionario de la lengua española) é o dicionário oficial da RAE, a Real Academia Espanhola — o equivalente ao nosso Vocabulário Ortográfico da ABL somado a um Houaiss oficial. É a referência normativa do espanhol.

O verbete cariño tem exatamente cinco acepções:

DLE (RAE) — verbete “cariño”

1. m. Inclinación de amor o buen afecto que se siente hacia alguien o algo.
(Inclinação de amor ou bom afeto que se sente por alguém ou algo.)

2. m. Manifestación de cariño. U. m. en pl.
(Manifestação de afeto. Usado mais no plural.)

3. m. Añoranza, nostalgia.
(Saudade, nostalgia.)

4. m. Esmero o afición con que se hace una labor o se trata una cosa.
(Esmero ou dedicação com que se faz um trabalho ou se trata uma coisa.)

5. m. Regalo, obsequio.
(Presente, lembrancinha.)

Espera… nenhuma dessas cinco é o “cariño” de chamar a pessoa! Sério que a palavra mais usada do dia a dia não está lá?
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No DLE, não está mesmo. E dá pra você conferir isso sozinho em trinta segundos — é só abrir dle.rae.es e contar as acepções.

Mas calma, porque a história tem uma reviravolta boa: a própria RAE registra esse uso — em outro dicionário dela.

O ponto mais interessante: dois dicionários da RAE discordam entre si

A RAE não publica só o DLE. Ela também publica o Diccionario del estudiante, feito para estudantes. E lá o uso como apelido está descrito com todas as letras:

cariñoSe usa para dirigirse a una persona que es objeto de ese sentimiento.
Oye, cariño, ¿has visto mis gafas?

Tradução: Usa-se para se dirigir a uma pessoa que é objeto desse sentimento. “Ei, amor, você viu meus óculos?”

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Repare que não é um caso de “a RAE não conhece o uso”. É um caso de dois dicionários da mesma instituição descreverem a palavra de formas diferentes.

O dicionário para estudantes já descreveu o que as pessoas fazem. O dicionário oficial ainda não incorporou isso ao verbete.

Mas por que o DLE não colocaria? Ele não tem uma forma de marcar isso?
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Boa pergunta — e é aí que fica ainda mais curioso. Ele tem, sim. Em outras palavras o DLE usa essa marcação normalmente!

O DLE marca o uso como apelido em outras palavras — mas não em “cariño”

Se você abrir o verbete de cielo (céu) no DLE, a acepção 7 diz:

cielo, 7. m. U. como apelativo cariñoso para dirigirse o aludir a una persona. Mi cielo. Cielo mío.

Tradução: Usado como apelido carinhoso para se dirigir a uma pessoa ou aludir a ela.

Ou seja: a etiqueta existe. E ela aparece — em formulações que variam bastante — em várias palavras:

Como o DLE marca (ou não marca) os apelidos afetivos

cielo (acep. 7) ⇒ “U. como apelativo cariñoso para dirigirse o aludir a una persona”
churri (acep. 2) ⇒ “U. t. como apelativo cariñoso
guapo (acep. 4) ⇒ “U. en vocativo, vacío de significado…”
nene (acep. 2) ⇒ marcado como “afect.” e “U. m. en vocat.
mi vida ⇒ entra como subentrada própria
alma mía ⇒ “loc. interj. Denota cariño.

cariñonenhuma etiqueta
corazónnenhuma etiqueta

Nossa, então nem a etiqueta é sempre a mesma — cada palavra recebeu uma redação diferente. E logo cariño e corazón, que são das mais usadas, ficaram sem nada.
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Exatamente. Só duas palavras recebem a expressão literal “apelativo cariñoso”: cielo e churri. As outras receberam formulações diferentes, e algumas não receberam nada.

Não é um dicionário ruim — é que dicionário é obra humana feita ao longo de décadas, e a aplicação das etiquetas fica desigual. Saber disso muda a forma como você usa dicionário: a ausência de uma acepção não prova que o uso não existe.

Sério que isso vale como método? Achei que dicionário fosse a palavra final.
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Ele é a melhor referência que a gente tem — mas é um registro do idioma, não uma lei. Ele corre atrás da língua viva, e às vezes fica alguns passos atrás.

Melhor ainda: você não precisa acreditar em mim. Abra o DLE em cariño e em cielo e compare os dois. A diferença está lá, à vista.

cariño em espanhol na prática: as construções que você precisa saber

Agora que o quadro está claro, vamos ao que importa para falar: como a palavra se encaixa numa frase.

1. tener cariño a alguien — “gostar muito de alguém”

Essa é a construção mais frequente com cariño como substantivo. Repare na preposição: tener cariño A alguien (não de).

【tener cariño a + pessoa/coisa】
・Le tengo mucho cariño a mi profesora de español.
(Eu gosto muito da minha professora de espanhol.)
Les tengo cariño a estos libros viejos.
(Tenho carinho por esses livros velhos.)

【tomar / coger cariño a — “criar afeto por”】
・Con el tiempo le tomé cariño al barrio.
(Com o tempo, criei afeto pelo bairro.)

【encariñarse con / de — “se apegar a”】
Me encariñé con el perro del vecino.
(Me apeguei ao cachorro do vizinho.)

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Duas observações úteis aqui, viu?

Primeira: o verbete do DLE de cariño não traz nenhuma locução — nem tener cariño a, nem nenhuma outra. Essas construções são reais e frequentes no uso, mas não venha citá-las como “está no dicionário”.

Segunda, bem prática: “coger” é perfeitamente normal na Espanha, mas tem sentido vulgar em vários países da América (Argentina, México, Uruguai, Bolívia, Paraguai, América Central, Venezuela e República Dominicana, entre outros). Nesses lugares, prefira tomar cariño.

Ah, então “tomar” é a opção que funciona em todo lugar. Anotado!

2. cariño mío — o detalhe de concordância que pega todo mundo

Você vai ouvir muito “cariño mío” em música, em novela e na vida real. E aqui tem uma pegadinha de gramática que confunde quem está começando.

Se eu falo com uma mulher, eu digo “cariña mía”?
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Não! E essa é justamente a armadilha. “cariña” não existe.

O possessivo em espanhol concorda com o gênero do substantivo, não com o gênero da pessoa com quem você fala. E cariño é masculino sempre. Então é “cariño mío” tanto para ele quanto para ela.

Faz sentido quando você lembra do que a palavra quer dizer: você não está chamando a pessoa de “querida”, está chamando ela de “meu afeto”. Igualzinho a “mi vida” ou “mi cielo”.

cariño mío significado
⇒ literalmente “meu afeto” ⇒ na prática: “meu amor”, “meu bem”, “querido(a)”
⇒ a forma não muda com o sexo da pessoa: cariño mío para homem e para mulher
cariña mía não existe

3. As outras acepções que você vai encontrar lendo

As acepções 2, 4 e 5 aparecem menos na conversa do dia a dia, mas vale reconhecer:

【acep. 2 — manifestação de afeto, mais usada no plural】
・Dale muchos cariños a tu madre de mi parte.
(Mande muitas lembranças carinhosas pra sua mãe.)

【acep. 4 — esmero, dedicação】
・Lo hizo todo con mucho cariño.
(Fez tudo com muito capricho. — igual ao nosso “feito com carinho”!)

【acep. 5 — presente, lembrancinha】
・Te traje un cariño de mi viaje.
(Te trouxe uma lembrancinha da minha viagem.)

Opa, “con mucho cariño” é idêntico ao nosso “com muito carinho”! Esse eu já sei sem estudar.
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É verdade, esse coincide certinho! Aproveite as coincidências — o português é a língua mais próxima do espanhol que existe, e isso te dá uma vantagem enorme.

Mas justamente por isso a gente precisa mapear com cuidado onde as duas não coincidem. E o caso de cariño / carinho é um dos melhores exemplos disso.

A etimologia: a palavra pode vir de “faltar”, não de “querido”

Aqui está a parte que costuma surpreender mais — e que fala diretamente com quem tem o português como língua materna.

Vamos começar pelo palpite natural. Quando um brasileiro vê cariño, o cérebro monta sozinho a seguinte conta:

O palpite natural do falante de português

caro (“querido”, como em “caro amigo”)
↓ + diminutivo -inho
carinho = “queridinho” ⇒ afeto

… e por analogia, caro + -iño = cariño em espanhol.

Foi exatamente isso que eu pensei quando li a palavra! Faz todo o sentido, né?
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Faz muito sentido — e é justamente por isso que é tão interessante saber que esse palpite foi examinado por um dos maiores etimólogos do espanhol e rejeitado.

Não é que ninguém pensou nisso. É que alguém pensou nisso, foi checar, e os dados não bateram.

Por que a teoria do diminutivo de “caro” foi rejeitada

Joan Corominas, autor do dicionário etimológico de referência do espanhol, examinou a hipótese de que cariño viesse de um diminutivo galego-português de caro. E descartou, por dois motivos concretos:

  • Não há rastro de cariño ter sido adjetivo. Se a palavra fosse um diminutivo de caro (“querido”), ela teria nascido adjetivo — e depois viraria substantivo. Não existe registro dessa fase adjetiva.
  • Faltam registros antigos nas línguas vizinhas. Em galego e em português, a documentação da palavra não aparece antes do século XIX — tarde demais para ser a origem.

Em espanhol, por outro lado, a palavra já aparece por volta de 1514, em autores como Juan del Encina e Lucas Fernández.

Ué, então o caminho é o contrário do que eu imaginava? O espanhol tem antes e o português depois?
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É exatamente essa a direção que os dicionários portugueses apontam! Volto nisso já já — vai ser a chave do falso amigo.

Antes, veja de onde a palavra pode ter vindo. Prepare-se, porque não é de nada bonitinho.

“cariño” pode vir de “carecer” — de sentir falta

O DLE não afirma uma origem. Ele escreve exatamente isto na linha de etimologia:

Etim. disc.; cf. lat. carēre ‘carecer’, arag. cariño ‘nostalgia’.

Tradução: Etimologia discutida; comparar com o latim carēre ‘carecer, faltar’ e com o aragonês cariño ‘nostalgia’.

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Repare bem em duas coisinhas da forma de escrever, que dizem muito:

“Etim. disc.” = etimologia discutida. A RAE está avisando que não há consenso.

“cf.” = “compare com”. Não é “vem de”, é “olhe para isto aqui”. É uma pista oferecida, não uma conclusão.

Então nunca diga por aí que “cariño vem do latim carēre”. Diga que o DLE aponta carēre como comparação numa etimologia declaradamente discutida. É mais preciso — e é mais honesto.

Entendi a diferença. Mas peraí — carēre é “faltar”?! Como é que “faltar” vira “afeto”?
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Essa é a pergunta certa! E a resposta é linda, viu?

Pense em como você percebe que gosta de alguém. Muitas vezes não é quando a pessoa está do seu lado — é quando ela não está. O afeto se revela pela falta.

Você, falando português, tem uma palavra que faz exatamente esse mesmo caminho: saudade. É sentimento bom feito de ausência.

E existe uma prova de que esse caminho não é invenção: a acepção 3 do DLE ainda está lá, com o significado “añoranza, nostalgia” — saudade — e sem nenhuma marca regional.

Há também o verbo dialetal cariñar, que significa justamente “sentir falta, sentir saudade”, e o aragonês cariño com o sentido de “nostalgia”, ambos citados na discussão etimológica.

O percurso possível (segundo a linha do DLE e de Corominas)
latim carēre = “carecer, faltar, não ter”

verbo dialetal cariñar = “sentir falta, sentir saudade”

aragonês cariño = “nostalgia, saudade” (← ainda é a acepção 3 do DLE!)
(a saudade de alguém passa a nomear o sentimento por alguém)
espanhol moderno cariño = “afeto” ⇒ e daí o apelido “meu bem”

※ Percurso proposto, não comprovado — o DLE marca a etimologia como discutida.

Que doido… então quando o espanhol chama alguém de “cariño”, pode ser que no fundo da palavra esteja escondido um “você me faz falta”. Isso é quase poesia!

O golpe final: “caricia” e “cariño” nem são da mesma família

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E agora eu vou te mostrar o detalhe que mais me diverte nesse verbete. Abra o DLE em caricia (carícia) e olhe a etimologia dela.

cariciaDel it. dialect. carizze, var. del it. carezza, y este der. de caro ‘querido’.

Tradução: Do italiano dialetal carizze, variante do italiano carezza, e este derivado de caro ‘querido’.

(E caro, por sua vez: Del lat. carus.)

Peraí! Então caricia É de “caro/querido” — a origem que eu tinha chutado pra cariño?
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Isso! Duas palavras que começam quase igual, que falam de afeto, que aparecem lado a lado no mesmo dicionário — e que apontam para origens opostas:

caricia ⇒ do italiano, de carus “querido” ⇒ o que se tem
cariño ⇒ o DLE manda comparar com carēre “faltar” ⇒ o que não se tem

E tem mais um detalhe fino: repare que na caricia a RAE escreve “Del it.” — afirmando — e no cariño escreve “cf.” — sem afirmar. Até o grau de certeza é diferente.

E em português a gente tem carinho e carícia como se fossem irmãs! Elas parecem tão da mesma família…
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Parecem, né? Nossa carícia vem da mesma linhagem italiana da caricia espanhola. Mas carinho segue outro caminho.

Elas se parecem porque a língua as juntou pelo sentido, não pela origem. Isso acontece o tempo todo — e é por isso que etimologia por semelhança de forma engana tanto.

carinho x cariño: o falso amigo que quase ninguém avisa

Chegamos ao ponto mais importante para você, que fala português. Vamos colocar os dois lado a lado.

O português é a língua mais próxima do espanhol — e carinho / cariño são praticamente a mesma palavra escrita com ortografias diferentes (nh e ñ são o mesmo som). Os dicionários brasileiros e portugueses, aliás, registram carinho como empréstimo do espanhol cariño.

Só que os dois se especializaram em direções diferentes.

carinho (PT-BR) x cariño (ES) — o mapa das diferenças

【1】Nome do sentimento
PT: Tenho muito carinho pelo meu avô.
ES: Le tengo mucho cariño a mi abuelo.
Coincidem.

【2】O gesto físico (afago)
PT: Fez um carinho no gato. ✓ (contável: “um carinho”)
ES: Le hizo una caricia al gato. / Acarició al gato.
Diferem: em espanhol o gesto é caricia/acariciar, não cariño.

【3】Chamar a pessoa (vocativo)
PT: ✗ Oi, carinho, tudo bem?ninguém fala assim
ES: Oye, cariño, ¿has visto mis gafas? ✓ — ouve-se o dia inteiro
A maior diferença de todas.

【4】Saudade / nostalgia
PT: carinho nunca significa saudade
ES: acepção 3 do DLE = añoranza, nostalgia
Só o espanhol guarda esse fio.

Então o erro perigoso é ao contrário do que eu imaginava. Não é eu entender errado o espanhol — é eu deixar de usar uma coisa que os espanhóis usam o tempo todo!
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Você resumiu perfeitamente! É um falso amigo por omissão.

Como carinho em português não serve para chamar ninguém, o seu instinto simplesmente não oferece essa opção. Aí você acaba usando só mi amor e querido, e nunca solta o cariño — que é justamente o mais natural na Espanha.

E no sentido inverso: quando você quiser dizer “fazer carinho no cachorro”, lembre que em espanhol isso é acariciar. Se você disser hacer cariño, vai soar estranho na maior parte do mundo hispânico.

Atenção: “cariñito” não é “carinho pequeno”

Ah, e se eu quiser fazer o diminutivo? “cariñito” seria tipo o nosso “carinho” mais fofinho, né? Serve como apelido?
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Aí está mais uma pegadinha, e uma bem boa! “cariñito” não é um apelido afetivo.

Ele nem sequer é uma entrada do DLE. E onde ele está registrado — no Diccionario de americanismos — o significado é “presentinho, lembrancinha” (Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Rep. Dominicana, Colômbia, Equador, Bolívia, Chile).

E em Honduras ele fica ainda mais longe de fofura: significa uma cobrança indevida acrescentada por baixo do pano. Nada romântico!

Que reviravolta! O diminutivo puxou pro lado do “presente”, não do “apelido”.
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Puxou — e faz sentido, porque a acepção 5 do DLE já era “regalo, obsequio”. O diminutivo se agarrou nessa acepção, não na do afeto.

Isso é um aviso valioso: o diminutivo em espanhol não funciona igual ao nosso. O nosso -inho/-inha e o deles -ito/-ita se correspondem na função, mas nem são a mesma origem — nosso -inho vem do latim -īnus, e o -ito espanhol é de outra família (a mesma do -etto italiano e do -ette francês).

Traduza a função, não o sufixo!

Correspondência de diminutivos (funcional, não etimológica)
gordinho ⇔ gordito / amorzinho ⇔ amorcito / beijinho ⇔ besito
⚠ mas carinhocariñito — este último puxa para “presentinho”

Bônus: “cariñoso” pode significar “caro”

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Já que a gente falou tanto de caro, olha essa: o adjetivo cariñoso normalmente é “carinhoso”, igual ao nosso.

Mas a acepção 3 do DLE registra que, em El Salvador e no México, cariñoso é usado coloquialmente com o sentido de “caro”, de preço alto!

Ese restaurante está muy cariñoso. = “Esse restaurante está bem salgado.”

Hahaha, olha só onde o “caro” foi aparecer! A gente passou o artigo inteiro dizendo que cariño não vem de caro, e no fim a família toda volta pra lá por outro caminho.

Apelidos carinhosos em espanhol: onde “cariño” se encaixa

Para fechar, vale situar cariño no conjunto. O espanhol tem um repertório grande de apelidos afetivos, e ele funciona por lógicas bem parecidas com as nossas:

Apelidos em espanhol e o paralelo em português

cariño (“afeto”) ⇒ meu bem, amor — o mais usado no dia a dia na Espanha
mi amor (“meu amor”) ⇒ meu amor — universal
(mi) cielo (“meu céu”) ⇒ meu bem, meu anjo
(mi) corazón (“meu coração”) ⇒ meu coração
(mi) vida (“minha vida”) ⇒ minha vida
gordo / gorditogordinho, gordinha — traço físico virando apelido

※ O português faz as duas coisas também: temos os afetivos abstratos (meu bem, benzinho, amorzinho) e os de traço físico (gordinho, nego, nega). Por isso a lógica dos apelidos espanhóis é fácil pra gente — o que muda é qual palavra ocupa cada casa.

Que interessante — as duas línguas usam traço físico como apelido carinhoso. Isso deve confundir muito quem fala inglês!
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Confunde bastante, sim! E é aí que você, brasileiro, sai na frente: você já entende essa lógica por dentro, porque a sua própria língua faz igual.

Se quiser ver o repertório completo, com os cuidados regionais de cada um, dá uma olhada aqui:

Resumo: cariño significado, uso e origem

cariño = substantivo masculino, “afeto, carinho” ⇒ e também o apelido “meu bem / amor” usado o tempo todo
O DLE (dicionário oficial da RAE) traz 5 acepções e nenhuma delas é o uso como apelido ⇒ mas o Diccionario del estudiante, também da RAE, traz: “Oye, cariño, ¿has visto mis gafas?” ⇒ dois dicionários da mesma casa descrevem a palavra de formas diferentes
● Construções ⇒ tener cariño a alguien / tomar cariño a / encariñarse con (ou de)
cariño mío = “meu amor” ⇒ a forma não muda com o sexo da pessoa (✗ cariña mía)
● Etimologia ⇒ o DLE marca como discutida e manda comparar com o latim carēre “faltar” e o aragonês cariño “nostalgia” ⇒ a acepção 3, añoranza, nostalgia, é o rastro disso
Corominas rejeita a hipótese do diminutivo de caro ⇒ o palpite mais natural de quem fala português já foi testado e descartado
caricia, ao contrário, vem mesmo de caro “querido”, via italiano ⇒ formas parecidas, origens opostas
Falso amigo ⇒ o carinho português é o sentimento e o afago (fazer um carinho), mas não serve para chamar ninguém; o gesto físico em espanhol é caricia / acariciar
cariñito não é apelido afetivo ⇒ no Diccionario de americanismos é “presentinho” (e em Honduras, cobrança indevida)
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E fica a lição que vale para o resto dos seus estudos, viu?

Dicionário é a melhor ferramenta que você tem — e mesmo assim é uma obra humana, que corre atrás de uma língua viva. Quando dois dicionários da mesma instituição discordam, isso não é defeito: é o retrato de um idioma se movendo mais rápido do que o registro dele.

Você não precisa acreditar em nada disso de cabeça. Abra o DLE em cariño e em cielo, e compare. Aprender a checar é a habilidade que fica pra sempre!

Vou conferir agora mesmo! E da próxima vez que eu falar com alguém em espanhol, vou soltar um “cariño” sem medo — agora eu sei que ele existe de verdade, mesmo faltando no verbete.
Fontes
Real Academia Española, Diccionario de la lengua española (DLE), verbetes cariño, cariñoso, caricia, caro, cielo, churri, guapo, nene, encariñar, coger (https://dle.rae.es/)
Real Academia Española, Diccionario del estudiante, verbete cariño
Asociación de Academias de la Lengua Española, Diccionario de americanismos, verbetes cariñito, cariño (https://www.asale.org/damer/)
Joan Corominas, Diccionario crítico etimológico, verbete cariño (discussão reproduzida em elcastellano.org)
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbete carinho (https://dicionario.priberam.org/carinho)
Michaelis, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, verbete carinho (https://michaelis.uol.com.br/)
Dicionário Aulete Digital, verbete carinho (https://www.aulete.com.br/carinho)