Você aprendeu que este significa “este”, “esta”, “esse aqui”. Perfeito. Só que aí você ouve um mexicano dizer:
“Ayer fui a… esteeee… a la casa de mi hermana.”
E não vem substantivo nenhum depois do “este”! O que aconteceu ali?
Não é isso, não! Aquele este não é o demonstrativo. É outra coisa completamente diferente.
Aquele este é uma muletilla — uma palavra de preenchimento. É o som que a pessoa faz enquanto procura a palavra que ainda não veio.
É exatamente o que você faz em português quando fala “é…” ou “ahn…”!
- 1 “este” como muletilla: o significado que o dicionário registra
- 2 Por que justamente “este”? A origem no demonstrativo
- 3 Onde se usa “este”: a geografia da muletilla
- 4 A regra de posição: “este” vem no MEIO, não no começo
- 5 Como pronunciar: o segredo está no “e” esticado
- 6 Como o brasileiro deve treinar isso
- 7 Três confusões comuns com “este”
- 8 Resumo: “este” como muletilla
“este” como muletilla: o significado que o dicionário registra
Isso não é gíria de rua nem invenção de professor. O Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española, registra esse uso como interjeição, num verbete separado do demonstrativo.
O dicionário remete este a esto, e define esto assim:
esto
interj. coloq. Expresa duda o vacilación respecto de lo que se va a decir. Esto… Quería pedirles un favor.Tradução: interjeição, coloquial. Expressa dúvida ou hesitação a respeito do que se vai dizer. “Ahn… Eu queria pedir um favor a vocês.”
E, no verbete de este: Este… Quería contarles algo grave. — com a nota “U. especialmente en Am.” (usado especialmente na América).
Repara em duas coisinhas nessa definição, que são ouro:
1) “Dúvida ou hesitação a respeito do que se vai dizer” — ou seja, o problema está na frente, na palavra que ainda não saiu.
2) “Usado especialmente na América” — isso é uma informação geográfica importantíssima, e a gente volta nela daqui a pouco.
⇒ equivale ao “é…” / “ahn…” do português brasileiro
⇒ equivale ao “um…” do inglês
Por que justamente “este”? A origem no demonstrativo
Excelente pergunta! E a resposta é bem lógica quando você pensa no que um demonstrativo faz.
O dicionário define o demonstrativo este como aquilo “que está cerca de la persona que habla” — o que está perto de quem fala. E também “que se acaba de mencionar, o que se va a mencionar a continuación”: o que vai ser mencionado a seguir.
Sacou? O demonstrativo já era, por natureza, uma seta apontando para a próxima coisa. Quando a próxima coisa demora a chegar, a seta fica no ar. E essa seta parada no ar virou a muletilla!
Um estudo publicado na Hispanic Studies Review que analisou corpora de fala do espanhol da Cidade do México descreve esse mesmo caminho: este teria se tornado marcador discursivo a partir do demonstrativo este (“this”), num processo que os linguistas chamam de discursivização.
Ou seja: a palavra perdeu o conteúdo de “este aqui” e ficou só com o gesto de apontar.
Do demonstrativo à muletilla
este = “este aqui, o que está perto de mim / o que eu vou mencionar agora”
↓ (a palavra que viria depois não chega)
este… = “o negócio… a coisa… como é que chama…”
↓ (o conteúdo se esvazia de vez)
esteeee… = puro som de hesitação, sem nenhum substantivo previsto
É exatamente essa a sensação, e você chegou nela sozinho!
Tanto que, na fala real, o este costuma aparecer grudado nesse mesmo tipo de tateio:
“Necesito el… este… la cosa esa para abrir la lata.”
(“Eu preciso do… ahn… daquele negócio pra abrir a lata.”)
Onde se usa “este”: a geografia da muletilla
Aquela nota do dicionário — “usado especialmente na América” — é prática demais para ser ignorada.
O este é a muletilla característica do espanhol americano, e o México é o seu território mais forte. Na Espanha, o mesmo espaço costuma ser ocupado por eh…, esto… ou o sea.
Os números da Cidade do México
O estudo da Hispanic Studies Review que mencionamos comparou dois períodos de fala gravada na Cidade do México, analisando mais de 13 mil ocorrências de marcadores de hesitação. Os resultados são bem esclarecedores:
Corpus antigo (1967–1975): este = 71,6% dos marcadores de hesitação; eh = 28,4%
Corpus recente (1997–2007): este = 75,7%; eh = 24,3%
Ou seja: na Cidade do México, três em cada quatro hesitações saem como este. E a proporção subiu ao longo de trinta anos, em vez de cair.
Se você pretende conversar com mexicanos, essa é a muletilla número um — não é opcional, é o som padrão da língua ali.
Onde você vai ouvir mais
México ⇒ território principal do este, com folga
Demais países da América ⇒ muito presente
Espanha ⇒ menos comum; ali dominam eh…, esto…, o sea
A regra de posição: “este” vem no MEIO, não no começo
Essa pergunta é ótima, porque tem uma resposta bem clara — e ela é medida, não é achismo!
O mesmo estudo mostrou que o este aparece de forma esmagadora no meio do turno de fala, e não no início nem no fim.
Traduzindo pro prático: você já começou a falar, e o este entra quando a frase engasga no caminho.
Isso dá uma regrinha muito útil para não errar:
Começo do seu turno de fala (você ainda não disse nada) ⇒ use pues…
Exemplo: —¿Qué opinas? —Pues, no sé…
Meio da sua frase (você já estava falando e travou) ⇒ use este…
Exemplo: Fui a comprar… este… unas cosas para la cena.
Isso mesmo! Guarda essa dupla que você já resolve boa parte das situações.
E vale dizer: nada explode se você começar uma frase com este — acontece. Mas o padrão típico e mais natural é o do meio.
Como pronunciar: o segredo está no “e” esticado
Aqui vai um detalhe que faz muita diferença e quase nunca é ensinado.
O este demonstrativo é pronunciado normal, curto: ES-te. Já o este muletilla quase sempre estica a vogal final: ES-teeeee…
Duas pronúncias, dois significados
Este libro es mío. → “ES-te” curto = demonstrativo (“Este livro é meu.”)
Es… esteeee… mío. → “ES-teeee” esticado = muletilla (“É… ahn… meu.”)
É esse alongamento que carrega toda a informação, viu? Ele é que avisa o outro: “segura aí, eu não terminei”.
Se você falar “este” curtinho e parar, o outro vai achar que você quis dizer “este” mesmo e vai esperar um substantivo. Aí sim vira confusão!
Como o brasileiro deve treinar isso
Atrapalha um pouquinho, sim — e é o vazamento mais comum de quem fala português.
O problema é que o nosso “é…” não é um som neutro em espanhol. Para o ouvido hispânico, ele não significa “estou pensando”: ele soa como um ruído solto, ou até como um começo de palavra que não veio.
A boa notícia é que a troca é uma peça por outra, no mesmo lugar da frase. Você não precisa mudar nada na sua forma de pensar.
A troca direta
“Eu comprei um… é… um guarda-chuva.”
↓
“Compré un… este… un paraguas.”
“A gente foi pra… ahn… pra praia.”
↓
“Fuimos a… esteeee… a la playa.”
Um exercício simples e que funciona: durante uma semana, toda vez que você sentir o “é…” subindo enquanto fala espanhol, force um este… no lugar. Faça isso até sair sem pensar. Depois disso, você pode parar de se preocupar com o assunto para sempre.
Três confusões comuns com “este”
1. “este” também significa “leste”
O dicionário da Real Academia Española separa a palavra em dois verbetes numerados: um deles é o ponto cardeal e o outro é o demonstrativo, que vem do latim iste.
Então el este quer dizer o leste, o ponto cardeal. Contexto resolve tudo: se vier el antes, é o ponto cardeal.
・El este del país es más seco.
(O leste do país é mais seco.)
・Este país es enorme.
(Este país é enorme.)
2. Não confunda com “esta” e “esto”
Como demonstrativo, o espanhol tem este (masculino), esta (feminino) e esto (neutro, para coisas indefinidas).
Mas como muletilla, a forma é sempre “este”, sem variar. Ela já não concorda com nada, porque não está mais se referindo a nenhum substantivo!
(O esto… hesitante também existe, e é o registrado no dicionário como forma de referência. Mas na fala americana quem domina é o este.)
3. Não é a mesma coisa que “esse” do português
Um detalhe de tradução que confunde brasileiro: o espanhol este corresponde ao nosso este/esse “perto de quem fala”, e o espanhol ese corresponde ao “perto de quem ouve”. A divisão não bate certinho com a do português falado no Brasil, onde “esse” ficou muito mais amplo.
Mas repare: essa dúvida some completamente quando se trata da muletilla, porque ali a palavra já não aponta para objeto nenhum.
Resumo: “este” como muletilla
• registrado no dicionário da RAE como interjeição, com a nota “usado especialmente na América”
• nasceu do demonstrativo: era a seta que apontava para a próxima palavra, e ficou parada no ar
• é a muletilla mais frequente do México (cerca de 3 em cada 4 hesitações, segundo estudo de corpus)
• aparece tipicamente no meio do seu turno de fala (para abrir uma resposta, prefira pues)
• pronúncia: o e final é esticado — “esteeee…” — e é isso que o distingue do demonstrativo
• para o brasileiro: é a substituição direta do “é…”, que não funciona em espanhol
Isso aí! E lembra do conselho mais importante: uma muletilla de cada vez.
Domina o este primeiro, deixa virar automático, e só depois vai atrás das outras. Quem tenta usar quatro ao mesmo tempo acaba com o discurso todo esburacado!
Palavras de preenchimento em espanhol: este, pues, o sea e a ver (guia completo para brasileiros)
Real Academia Española y Asociación de Academias de la Lengua Española, Diccionario de la lengua española, verbete “este, esta” (https://dle.rae.es/este)
Real Academia Española y Asociación de Academias de la Lengua Española, Diccionario de la lengua española, verbete “muletilla” (https://dle.rae.es/muletilla)
“A Longitudinal Corpus-Based Study of Hesitation Markers in Mexico City Spanish: Este and Eh Then and Now”, Hispanic Studies Review (hispanicstudiesreview.cofc.edu)